O atual mandato de Trump será marcado pela polarização política e intensos debates sobre a censura, a liberdade de imprensa e dos cientistas e a integridade da informação ofertadas na imprensa, redes sociais e pelos modelos linguagem dos chats de Inteligência artificial.
O termo “ditadura informacional” pode parecer dramático, mas descreve um cenário onde o controle da informação, a manipulação da narrativa e a supressão da verdade científica ameaçam o alicerce da sociedade democrática. A ditadura informacional, combinada com a censura e a desinformação, representa uma grave ameaça à ciência e à sociedade democrática.
Neste artigo, exploraremos o que significa ditadura informacional, o papel da censura, o posicionamento contraditório da extrema direita sobre o tema e como essas forças podem impactar a ciência, com foco nos eventos ocorridos durante o governo Trump, considerando também conceitos como “capitalismo de vigilância” e “vigilância em massa”.A vigilância em massa, combinada com a censura e a manipulação da informação, cria um ambiente propício ao controle da informação e à supressão de vozes dissonantes.
O conceito de “vigilância em massa”, como analisado por Lyon (2001), descreve a coleta generalizada de dados pessoais, que pode ser utilizada para fins de controle social e político. Segundo Lyon, “a vigilância em massa é uma característica fundamental das sociedades contemporâneas” (LYON, 2001, p. 15).
O que é Ditadura Informacional?
A ditadura informacional, embora não seja um termo técnico universalmente aceito, pode ser entendida como um sistema onde o poder político exerce controle sobre o fluxo de informações, buscando moldar a opinião pública e suprimir vozes dissidentes. Esse controle pode ser exercido por meio de:
- Censura: A supressão direta de informações, seja por meio de proibições, remoção de conteúdo, ou outras formas de repressão.
- Desinformação: A disseminação intencional de informações falsas ou enganosas (fake news) para confundir, polarizar e minar a confiança nas fontes de informação confiáveis.
- Manipulação da mídia: O controle dos meios de comunicação, seja por meio de propriedade direta, influência política ou pressão econômica, para garantir que a narrativa oficial seja propagada.
- Vigilância e controle digital: O uso de tecnologias de vigilância para monitorar a população e controlar o acesso à informação. Essa vigilância pode ser exacerbada por práticas como o “capitalismo de vigilância”, descrito por Zuboff (2019), onde dados pessoais são coletados e comercializados em larga escala. “O capitalismo de vigilância unilateralmente reivindica a experiência humana como matéria-prima gratuita para traduzir em dados de comportamento”, (ZUBROFF, 2019, p. 8).
Censura na Era Trump: A Contradição da Extrema Direita
Durante os dois mandatos de Trump, a questão da censura ganhou novos contornos, especialmente devido à abordagem contraditória da extrema direita em relação ao tema. As fontes fornecidas revelam essa complexidade.
- Ameaças à Censura, mas com reservas: A CNN Brasil relata que Trump prometeu assinar um decreto para “acabar com toda censura” nos EUA. No entanto, o mesmo governo que fez essa promessa, ao mesmo tempo, restringiu o uso de termos e atacou a mídia, demonstrando uma visão seletiva sobre o que constitui censura.
Tipos de censura:
- Censura como proibição explícita, proibitiva.
- Censura como uma restrição de um determinado vocabulário em determinado meio (o que contradiz seu discurso).
Com bandeiras em favor da liberdade de expressão, a extrema se apresenta como defensora desta liberdade, mas ao mesmo tempo, busca restringirm, marginalizar e diminuir discursos sobre determinados temas, como questões sociais, direitos das minorias e a própria ciência.
Essa contradição revela uma estratégia seletiva: a liberdade de expressão é defendida para aqueles que compartilham suas visões, enquanto outras perspectivas são silenciadas ou marginalizadas.
Como uma ditadura infomacional se fortalece
- Supressão de dados científicos: Dados e pesquisas que contradizem a narrativa política podem ser suprimidos ou alterados, prejudicando o processo científico.
- Desacreditação da ciência: O descrédito da ciência e a disseminação de desinformação podem minar a confiança do público na ciência e nos especialistas.
- Dificuldade de compartilhamento de informações: A censura e a perseguição de cientistas podem dificultar o compartilhamento de dados e resultados de pesquisas, atrasando o progresso científico.
- Privatização e marginalização política dos dos espaços de educação pública;
- Defesa do direito à fake news, fortalecimento de pautas racistas e ideologias de gênero.
Durante o primeio mandato de Trump, observamos uma série de eventos que levantaram sérias preocupações sobre o futuro da informação e da pesquisa científica:
- Mudanças Climáticas: O governo Trump retirou os Estados Unidos do Acordo de Paris e minimizou o papel das mudanças climáticas. As restrições ao uso de termos relacionados ao clima, como “mudanças climáticas” e “aquecimento global”, em documentos oficiais reforçaram a postura de negação e dificultaram a comunicação de dados e resultados de pesquisas científicas. Essa postura reflete uma tentativa de “minar a credibilidade da ciência climática” (Análise da CartaCapital sobre o tema).
- COVID-19: O governo Trump foi acusado de minimizar a gravidade da pandemia e de interferir nas recomendações dos especialistas em saúde. A censura dos termos relacionados a grupos específicos, pode ter prejudicado a disseminação de conteúdo de saúde pública relevante para estes. Houve tensões entre cientistas e o governo sobre as políticas de saúde pública. As políticas de restrição também se aplicavam às políticas de saúde pública, restringindo o diálogo e afetando a sociedade.
Segundo mandato de Trump marcado pela perseguição aos cientistas estrangeiros e intervenção direta nas universidades
Apesar de, até o presente momento, a perseguição às universidades no governo Trump não ter atingido a mesma escala de violência e repressão da ditadura brasileira, a polarização política e as disputas em torno da “guerra cultural” (extrema direita vs. “wokes”) e da supremacia tecnológica e domínio da IA criam um contexto contencioso para ações que restringem o desenvolvimento da pesquisa científica em escala global.
Investigação e perseguição contra Unversidades por manterem programas de cotas de diversidade
O artigo do O Globo (março, 2024), revela um aspecto preocupante das ações do governo Trump em relação ao ensino superior e à ciência: a abertura de investigações contra mais de 50 universidades por programas de diversidade. Essa medida, inserida em um contexto de crescente polarização política e ataques à “ideologia woke”, demonstra uma clara tentativa de interferência na autonomia universitária e de controle ideológico.
Agenda contra o “vírus woke”
Trump propôs o fim do Departamento de Educação, visando “expurgar” o que chama de “vírus woke” das escolas e universidades. A medida, embora dependente de aprovação congressual, simboliza o alinhamento com setores conservadores que veem instituições de ensino como espaços de “doutrinação”.
O Globo, Rio de Janeiro, 14 mar. 2024. Disponível em: https://oglobo.globo.com/mundo/noticia/2025/03/14/governo-trump-abre-investigacao-contra-mais-de-50-universidades-por-programas-de-diversidade-em-cerco-ao-ensino-superior.ghtml. Acesso em: 15 maio 2024.
Mais de 50 instituições estão sob investigação por supostas práticas discriminatórias contra estudantes brancos e asiático-americanos, com foco em programas de DEI. Entre elas, destacam-se:
Harvard e MIT: Abandonaram cotas raciais após pressão de doadores e decisões judiciais.
Universidade da Califórnia: Enfrenta processos por manter políticas de ações afirmativas
Durante o governo Biden, instituições como Universidade de Notre Dame e Universidade de Baylor foram multadas por não adotarem políticas DEI, embora a gestão Trump tenha revertido parte dessas medidas.
Tendências e impactos
- Recuo acadêmico: O uso de termos “woke” em ementas de cursos e artigos científicos atingiu o pico em 2022, mas está em declínio, influenciado por leis que proíbem ações afirmativa
Trump anuncia lista de termos “wokes” probidos nas universidades americanas
Segundo o jornal New York time, a administração Trump restringiu o uso de quase 200 termos considerados “woke” em documentos governamentais e desencorajou instituições de ensino e pesquisa a usá-los. Essa ação, que incluiu termos relacionados a feminismo, questões LGBTQIA+ e mudanças climáticas, como “acessibilidade”, “saúde mental”, “ativismo”, “crise climática”, “antirracista’, “diversidade”e “feminismo”, entre outros.
A política de Donald Trump tem impactado universidades associadas a pautas progressistas (“woke”) por meio de ações governamentais, pressões legais e influência cultural. Mais de 50 instituições estão sob investigação por supostas práticas discriminatórias contra estudantes brancos e asiático-americanos, com foco em programas de DEI. Entre elas, destacam-se:
Harvard e MIT: Abandonaram cotas raciais após pressão de doadores e decisões judiciais.
Universidade da Califórnia: Enfrenta processos por manter políticas de ações afirmativasconforme evidenciado nos resultados:
- Cortes em programas federais de diversidade
Trump determinou o fim de iniciativas de DEI (Diversidade, Equidade e Inclusão) em instituições públicas, considerando-as “radicais e ineficazes”. Essa medida inclui treinamentos e projetos em universidades, além de políticas ambientais. A decisão reflete a pressão conservadora contra ações afirmativas, como cotas raciais, que foram declaradas inconstitucionais pela Suprema Corte em 2023. - Legislação estadual contra DEI
Estados como Alabama e Iowa aprovaram leis proibindo programas de DEI em instituições públicas, incluindo universidades. Essas medidas reforçam a narrativa de que políticas de inclusão promovem “discriminação invertida”. A insegurança jurídica gerada por decisões como a da Suprema Corte também limita ações de universidades privadas. - Pressão cultural e corporativa
Empresas como Microsoft, Google e Meta reduziram investimentos em DEI, influenciadas por críticos como Elon Musk, que associam essas políticas a “discriminação”. Embora universidades não sejam empresas, a retirada de apoio corporativo pode afetar parcerias e financiamentos para projetos sociais. - Agenda contra o “vírus woke”
Trump propôs o fim do Departamento de Educação, visando “expurgar” o que chama de “vírus woke” das escolas e universidades. A medida, embora dependente de aprovação congressual, simboliza o alinhamento com setores conservadores que veem instituições de ensino como espaços de “doutrinação”
Probição de livros nas escolas norte-americanas
O relatório da PEN America e da organização Artists at Risk Connection (ARC) — abordou o estado atual da censura e da autocensura,divulgando em 2024 so crescimento no número de livros proibidos em escolas e bibliotecas escolares dos Estados Unidos, que triplicaram em um ano: passaram de 3.362 para mais de dez mil (10.046). Nesse caso, a censura é atribuída a diferentes leis estaduais e à pressão de grupos conservadores sobre os distritos escolares.
Perseguição a estudantes e cientistas estrangeiros
O secretário de Estado dos EUA, Marco Rubio, cancelou os vistos de mais de 300 estudantes internacionais supostamente envolvidos nos protestos anti-Israel e outras manifestações, além de proibir a entrada de cientistas estrangeiros renomados no EUA , sem justificativa.
A obra de Michel Foucault, especialmente em “Vigiar e Punir” (1977), oferece uma lente poderosa para entender como o poder se manifesta e se exerce por meio do controle da informação. Foucault argumenta que o poder não é meramente repressivo, mas produtivo, criando conhecimento e moldando identidades. A análise foucaultiana ajuda a compreender como a informação é utilizada para criar e manter sistemas de poder, inclusive em regimes informacionais (FOUCAULT, 1977)
Hannah Arendt, em seus estudos sobre a natureza do poder e da verdade, como em “A Crise da República” (1972), destaca a importância da verdade para a vida política e a democracia. Para Arendt, a manipulação da informação e a disseminação de mentiras representam uma ameaça existencial, pois corroem a confiança no espaço público e minam a capacidade dos cidadãos de tomar decisões informadas. Arendt argumenta que a verdade é essencial para a liberdade, e que a perda da capacidade de distinguir entre verdade e mentira leva à desagregação da sociedade e à ascensão do totalitarismo (ARENDT, 1972).
Na linha de frente da informação: O papel crucial de educadores, jornalistas, cientistas
Diante dos desafios impostos por este tipo de censura e pela crescente disseminação da desinformação, educadores e cientistas se encontram em uma posição de destaque, sendo chamados a desempenhar um papel crucial na defesa da verdade, da integridade da informação e da democracia. Suas ações são essenciais para combater as ameaças à ciência e à sociedade, promovendo o pensamento crítico e a análise rigorosa da informação.
“A coleta e análise de dados em grande escala possibilitam novas formas de controle social” (LYON, 2001, p. 25). É essencial que a sociedade civil, os educadores, os jornalistas, os cientistas estejam atentos a essas táticas e trabalhem juntos para proteger a liberdade de expressão, a integridade científica e a verdade, independentemente das afiliações políticas. A vigilância constante e a defesa dos princípios democráticos são essenciais para combater a ditadura informacional e garantir que a ciência possa prosperar.
Apoiar a liberdade de imprensa e as organizações que defendem a verdade, de forma coerente e respeitosa às minorias:
Ensinar a sociedade e os alunos a verificar a veracidade das informações antes de compartilhá-las, combatendo as fake news:
Denunciar a desinformação e a censura sempre que as encontrarem: A omissão diante da desinformação e da censura é inaceitável. Educadores e cientistas devem se manifestar publicamente contra a disseminação de informações falsas e contra qualquer forma de restrição à liberdade de expressão.
Apoiar a ciência, a autonomia dos cientistas e o Open acess: Defender a ciência aberta e transparente e uma competitividade justa para todas as nações para o enfrentamentos dos problemas globais
Apoiar a educação midiática e o letramento digital: Promover a educação midiática e o letramento digital é essencial para capacitar as pessoas a navegar no complexo cenário da informação digital, ensinando-as a analisar, avaliar e produzir conteúdo de forma crítica e responsável.
Questionar a desigualdade algorítmica, garantindo a transparência nos debates nos canais digitais e revistas acadêmicas
- LYON, D. The Electronic Eye: The Rise of Surveillance Society. Minneapolis: University of Minnesota Press, 2001.
- ZUBROFF, S. The Age of Surveillance Capitalism: The Fight for a Human Future at the New Frontier of Power. PublicAffairs, 2019.
- ARENDT, H. A crise da república. São Paulo: Perspectiva, 1972.
- CHOMSKY, N.; HERMAN, E. S. Manufacturing consent: The political economy of the mass media. New York: Pantheon Books, 1988.
- FOUCAULT, M. Vigiar e punir: nascimento da prisão. Petrópolis: Vozes, 1977.
Ivini Ferraz é mestre em Ciências pela USP com foco em sustentabilidade. Professora de Pós-graduação na área de ESG e especialista em Comunicação Transmidiática, Jornada do Cliente e Transformação Digital.