Inteligência Artificial e Personalização do ensino: a pedagogia racional de Bordieu

O sociólogo da educação Pierre Bourdieu (1930-2002) foi um dos principais críticos da visão funcionalista da escola, que atribuía a ela um papel emancipador e igualitário na sociedade. No início de sua carreira, muito antes de se pensar em inteligência artificial na educação, Bourdieu chegou a cogitar a possibilidade de uma “pedagogia racional”, que poderia transmitir metodicamente aos alunos os pré-requisitos necessários à decodificação da comunicação pedagógica, independentemente de sua origem social. Essa pedagogia racional teria como objetivo tornar a escola mais justa e democrática, ao garantir a igualdade de oportunidades entre todos os alunos. No entanto, Bourdieu logo abandonou essa ideia, por considerá-la utópica e inviável. Ele acreditava que o processo de reprodução social era muito forte e resistente às mudanças, e que a escola não tinha condições de superar as diferenças culturais e linguísticas entre os alunos.

O que é Reprodução Social: as críticas à escola de Bordieu

Para Bourdieu, a escola não é uma instituição neutra, mas sim um espaço de reprodução e legitimação das desigualdades sociais, culturais e econômicas. A escola, segundo ele, favorece os alunos que já possuem o capital cultural e linguístico adequado ao código dominante da comunicação pedagógica, que é o mesmo das classes mais cultivadas. Assim, a escola acaba por excluir ou marginalizar os alunos que vêm de famílias com menor capital cultural e linguístico, que não dominam o código escolar e que, portanto, têm dificuldades de compreender e assimilar os conteúdos transmitidos pelos professores.

A reprodução social para Bourdieu é o processo pelo qual as desigualdades sociais, culturais e econômicas entre as classes são mantidas e legitimadas ao longo do tempo. Bourdieu argumenta que a escola é uma das principais instituições que contribuem para a reprodução social, ao transmitir e avaliar o capital cultural dominante, que é o conjunto de conhecimentos, habilidades, valores e estilos de vida que são valorizados e reconhecidos pela sociedade. A escola, segundo Bourdieu, não é neutra, mas sim um espaço de dominação simbólica, onde os alunos que possuem o capital cultural adequado ao código da comunicação pedagógica têm mais chances de sucesso, enquanto os que não possuem são excluídos ou marginalizados. Assim, a escola acaba por reproduzir e reforçar as diferenças e as hierarquias entre as classes, ao invés de promover a igualdade de oportunidades e a emancipação dos indivíduos.

Atualmente, com o auxílio de Inteligência Artificial, em vez de tentar uniformizar o código da comunicação pedagógica, é possível personalizar o ensino conforme as características, necessidades e interesses de cada aluno. Para isso, utilizamos a inteligência artificial (IA) como uma ferramenta pedagógica para gestão escolar, capaz de adaptar o conteúdo, o método e o ritmo de aprendizagem de cada estudante. Acreditamos que a IA pode contribuir para uma educação mais inclusiva, diversa e eficaz, ao oferecer aos alunos um ensino personalizado e individualizado, que respeite suas diferenças e potencialize suas capacidades.

A personalização do ensino como Inteligência Artificial é uma pedagogia racional

A IA e personalização do ensino tem avançado muito nas últimas décadas, graças ao desenvolvimento de novos algoritmos, ao aumento da capacidade de processamento e armazenamento de dados e à disponibilidade de grandes quantidades de informação na internet. Hoje em dia é possível saber a forma mais apropriada para ensinar um aluno, segundo o seu próprio tempo e modo de aprendizagem, seja através de leitura, oral, escrita e testes.

A personificação da aprendizagem é uma abordagem pedagógica que busca adaptar o ensino às características, necessidades e interesses de cada aluno, de forma a oferecer uma educação mais personalizada e individualizada. Se diferencia de um sistema que pressupõe que todos aprendam igual, que é uma abordagem tradicional que padronizará o ensino para todos os alunos, para oferecer uma educação mais uniforme e coletiva.

Um exemplo de como funciona a personificação da aprendizagem é o uso de sistemas de ensino adaptativo, que são sistemas de inteligência artificial que ajustam o conteúdo, o método e o ritmo de aprendizagem de cada aluno, de acordo com seu perfil, seu desempenho e seus objetivos. Esses sistemas podem oferecer aos alunos um feedback imediato e personalizado, além de recomendar recursos e atividades adequados ao seu nível e estilo de aprendizagem. Por exemplo, se um aluno tem dificuldade em matemática, o sistema pode oferecer-lhe exercícios mais simples e explicativos, que reforcem os conceitos básicos e as operações fundamentais.

A IA tem sido aplicada em diversas áreas, como saúde, segurança, entretenimento, transporte e educação. Na educação, a IA pode ser usada para criar sistemas de ensino adaptativo, capaz de ajustar o conteúdo, o método e o ritmo de aprendizagem de cada aluno, de acordo com seu perfil, seu desempenho e seus objetivos. Esses sistemas podem oferecer aos alunos um feedback imediato e personalizado, além de recomendar recursos e atividades adequados ao seu nível e estilo de aprendizagem. Além disso, a IA pode ser usada para criar sistemas de tutoria inteligente, capazes de interagir com os alunos de forma natural e humana, por meio de texto, voz ou imagem, e de fornecer orientação, motivação e apoio emocional durante o processo de aprendizagem.

A pedagogia racional e a inteligência artificial: uma articulação possível

A pedagogia racional hoje e no futuro seria impulsionada como IA e imporia um código único e dominante de comunicação pedagógica, mas sim respeitar e valorizar a diversidade cultural e linguística dos alunos. A IA pode ser usada para reconhecer e traduzir diferentes línguas, dialetos e sotaques, bem como para identificar e incorporar diferentes referências e saberes culturais, de forma a tornar o ensino mais acessível, compreensível e significativo para cada aluno.
Tal pedagogia não substituiria o professor, mas sim complementar e potencializar seu trabalho. O professor continua sendo o responsável pelo planejamento, pela mediação e pela avaliação do processo de ensino-aprendizagem, mas conta com o apoio da IA para adaptar e otimizar o ensino para cada aluno.

A pedagogia racional que propomos, por fim, não pretende reproduzir e legitimar as desigualdades sociais, mas sim contribuir para a sua superação. A IA pode ser usada para detectar e corrigir as dificuldades e as defasagens de aprendizagem dos alunos, bem como para estimular e desenvolver suas habilidades e competências, de forma a garantir a igualdade de oportunidades e a justiça educacional para cada aluno.

A hipótese de uma pedagogia racional com a IA e personalização do ensino é possível. Argumentamos que a IA pode ser uma ferramenta pedagógica capaz de adaptar o ensino conforme as características, necessidades e interesses de cada aluno, para oferecer uma educação mais inclusiva, diversa e eficaz. Acreditamos que essa pedagogia racional pode contribuir para uma sociedade mais justa, moderna e democrática, ao garantir a igualdade de oportunidades e a autonomia individual de cada cidadão.

A personalização do ensino por meio da IA vantagens:

    • Aumentar a motivação e o engajamento dos alunos, ao oferecer um ensino mais relevante, interessante e desafiador para cada um.

    • Melhorar o desempenho e os resultados dos alunos, ao proporcionar um ensino mais eficiente, eficaz e individualizado para cada um.

    • Reduzir as desigualdades e as lacunas de aprendizagem entre os alunos, ao oferecer um ensino mais inclusivo, diverso e equitativo para cada um.

Bibliografia

    • BOURDIEU, Pierre; PASSERON, Jean-Claude. A reprodução: elementos para uma teoria do sistema de ensino. 2. ed. Rio de Janeiro: Francisco Alves, 1975.

    • CAMPOS, André de. Learning Analytics em processos de personalização de aprendizagem: uma revisão sistemática de literatura. Revista Brasileira de Informática na Educação, Porto Alegre, v. 28, n. 1, p. 1-18, jan./abr. 2020. Disponível em: https://www.br-ie.org/pub/index.php/rbie/article/view/10038. Acesso em: 20 abr. 2024.

    • NOGUEIRA, Cláudio Marques Martins; NOGUEIRA, Maria Alice. A sociologia da educação de Pierre Bourdieu: limites e contribuições. Educação & Sociedade, Campinas, v. 23, n. 78, p. 15-35, abr. 2002. Disponível em: <1>. Acesso em: 20 abr. 2024.

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